Histórias de vida

Através do site da Laço (www.laco.pt) tivemos acesso a histórias verídicas vivências do cancro. Porque uma boa história por vezes pode valer muito mais do que mil campanhas de sensibilização, por e-mail, contactá-mos a Laço e foi nos dada autorização para a publicação destas histórias, tendo por finalidade a publicação destas nesta página do nosso blog.  Agradeçe-mos à Laço pelo apoio que nos foi prestado.

I.D., 52 anos, casada, profissional de seguros, Cancro da mama em 2005

                Sou profissional de seguros e há cerca de pouco mais de três anos, aos 49,ao fazer o habitual check-up, que a minha Seguradora proporciona aos seus trabalhadores, foi-me detectado um nódulo no seio direito. Imediatamente fiz uma biopsia que veio a confirmar que o nódulo era maligno e que seria necessário retirar o seio.O nódulo tinha 12 mm, não era muito grande, mas apesar disso a decisão médica foi de fazer mastectomia total porque sou portadora de uma insuficiência cardíaca. Já tinha substituído uma válvula (mitral) em 1984 e estava numa lista de transplantes ao coração. Seria uma forma de não agravar o meu estado de saúde já que, se fizesse cirurgia conservadora da mama, teria que fazer radioterapia o que poderia prejudicar a insuficiência cardíaca.

                Não é fácil saber que temos um cancro. Que temos mais uma doença que é maioritariamente fatal. Senti que me tinham anunciado o fim da vida. Todos temos a certeza de que não somos eternos, que a nossa vida acaba, mas pensamos que esse momento ainda está longe. Ao ouvir esta notícia, achei que o meu momento estava para breve. Senti que a vida não estava a ser justa para mim. Os meus filhos ainda eram muito jovens para ficarem sem a mãe e o meu marido já tinha perdidos os pais. A mãe tinha morrido de cancro.

                A notícia de que o peito me seria amputado não era boa, mas o que mais temi foi a morte. Foi a pior notícia que tive até hoje. O futuro assemelha se negro. À partida pensei que tinha poucas hipóteses de sobreviver. Achei que estava em desvantagem em relação às outras doentes, porque não podia fazer os mesmos tratamentos (quimioterapia e radioterapia), logo a esperança de vida era muito menor. Caiam por terra as expectativas de uma vida com melhor qualidade que tinha sonhado para depois do transplante cardíaco.

                Apesar de saber que era uma operação de elevado risco, estava preparada para a aceitar e aceitar os tratamentos pós-operatórios, que sabia não serem nada fáceis. Não estava preparada era para ouvir que tinha um cancro. E um cancro no seio. Fui mãe de duas crianças e amamentei-as até aos 6 meses. Dizem os estudos que a probabilidade de cancro do seio neste caso é menor, eu contrariei esse estudo. Passei por momentos difíceis. Tive medo. Medo da dor, da degradação de vida e principalmente da morte. E foi com o apoio do meu marido, que me disse que juntos iríamos ultrapassar mais esta fase.

                Nas palavras de conforto e de esperança dos meus amigos, e na confiança que depositei na equipe médica, que acreditei que havia uma solução para mim. Que voltei a acreditar que enquanto há vida há esperança. Encontrei muitos amigos, que já não via há algum tempo. Falei com eles sobre o assunto, porque falar ajudava-me a libertar os meus medos.Quase todas as pessoas têm ou conhecem alguém que infelizmente teve cancro. Ao ouvir as suas histórias fiquei mais confiante, com forças para continuar a lutar.

 

Interiorizei que os meus filhos e marido precisavam de mim. Que não lhes podia mostrar que estava com medo. Passei-lhes uma imagem de optimismo, confiança e alegria. Tentei não valorizar muito a doença.

                Só na véspera do meu internamento é que disse aos meus filhos que se tratava de cancro, maligno, e que iria tirar o seio. Disse-lhes que era um procedimento normal, que não envolvia riscos e que tudo iria correr bem. Recordo-me dos seus rostos quando ouviram a notícia. Dos seus olhos que começaram a lacrimejar e no esforço que fizeram para não chorar. Portaram-se como uns homens. Passaram por um período igualmente difícil, mas nunca mostraram o medo à minha frente. Eu por outro lado, tentei brincar com a situação, para que não sofressem tanto.

                Foi operada a 7 de Janeiro de 2005. A operação foi um êxito. Passados poucos dias estava em casa, junto da minha querida família. Só em casa é que olhei pela primeira vez para o meu corpo. Em frente ao espelho vi-o, pela primeira vez, mutilado. Faltava-me um seio. Pensei que a imagem iria ser pior. Consegui aceitá-la embora a tristeza seja muita. Mais uma marca no meu corpo. Apresentava-se agora marcado como de uma cruz se tratasse e à qual faltava um braço. Levantei a cabeça. Tinha de viver com esta situação. Tentei não pensar muito sobre o assunto e aceitar o meu corpo tal como estava. É mais importante estar viva. Esta é uma deformação que só quem está intimamente ligada a nós, é que sabe. A prótese disfarça bem.

                Os tempos que se seguiram foram de exames que têm vindo a ser satisfatórios. O tratamento tem sido à base de comprimidos diários (hormonoterapia) e durante os dois primeiros anos de injecções trimestrais na barriga.

                Entretanto, passaram-se já três anos. Fui retirada da lista dos transplantes cardíacos e submetida a nova operação ao coração. para substituir a válvula. Neste momento estou a aguardar por uma outra, desta vez para reconstrução do seio. Sempre que me tenho de despir, no ginásio, no médico ou quando vou à praia, procuro esconder o meu corpo para evitar magoar as pessoas com a imagem da sua deformação. Será a quinta cirurgia que faço. Poderia evitá-la não fosse o facto de sentir que a falta do seio me inferioriza como mulher. É uma forma de voltar a recuperar a auto-estima e de me voltar a sentir uma mulher quase completa.

                Quanto ao resto, tenho tentado acima de tudo ser feliz. Passei a dar mais importância à família e aos amigos. Vivo com qualidade de vida. Vivo cada dia que passa com intensidade e agradeço todos os dias a Deus, por me ter concedido mais um dia. A vida continua e espero ainda viver muitos dias.

 

 

P.R. – 37 anos, casada e mãe de 2 meninas com 17 e 8 anos – Cancro de mama em 2005

O ano de 2005 foi dos piores da minha vida.

                Em 2004, para além de ter o meu emprego normal como escriturária ainda acumulava um part-time aos fins de semana como caixa de hipermercado; mantive estes dois empregos ao longo de 7 meses e como tal associava a dor na minha mama esquerda (tipo umas fisgadas…como se me estivessem a espetar algo) ao stress, excesso de trabalho.

                Entretanto, ainda em 2004 no mês de Agosto, fui ao meu ginecologista para mais uma consulta de rotina e na qual me queixei da dor, à qual o doutor também associou ao stress pois nada detectou ao examinar-me e até me receitou uma pomada. Entretanto entrei de férias e por coincidência ou não as dores eram menos. De volta à rotina e aos dois empregos as dores persistem e também noto, aliás foi meu marido quem primeiro reparou uma leve deformação no meu mamilo, tipo retracção. Nesse momento percebi que algo mais se passava e não seria o stress. Fui então à minha Medica de Família e pedi-lhe para me passar uma ecografia ou mamografia e expliquei o porquê, isto tudo já próximo do final do ano. Como no meu intimo eu pressentia que algo de grave se passava, deixei passar as festas de fim do ano, mas claro sempre muito angustiada e ansiosa.

                No dia 06 de Janeiro de 2005 saí do meu trabalho por volta das 18h e fui fazer a ecografia. Fui sozinha pois embora eu soubesse que algo de mal poderia acontecer, no fundo tinha esperança que talvez nem fosse nada de grave, pois não estava no suposto grupo de risco, tinha só 35 anos, fui mãe jovem, amamentei, não tinha tido ate ao momento nenhum caso na família. Então lá fui eu, fiz a ecografia e quando a doutora começa o exame e pára

a olhar muito séria para o monitor eu vi de imediato que ali havia mesmo algo de grave. Dali a doutora pediu para eu esperar pois teria que fazer uma mamografia e assim foi, e depois repeti a ecografia, e logo a seguir a médica passou-me uma carta para eu no outro dia ir de imediato à minha medica de família pedir para mandar o processo para o IPO de Coimbra; tinha realmente um nódulo. Naquele momento fiquei sem palavras mas não chorei e ouvi atentamente tudo o que a doutora me dizia, por sinal super simpática e muito atenciosa. Mal entrei no meu carro desatei a chorar e revoltada só perguntava porquê eu? Fui para casa e mal entrei com os exames meu marido perguntou como tinha corrido mas eu nem sequer tive tempo de lhe responder e fugi para o meu quarto para minhas filhas não me verem naquele estado. Depois do choque inicial, resolvi que o cancro não me iria vencer e resolvi lutar…lutei principalmente por mim, pela minha vida mas também pelas minhas filhas, pelo meu marido e pela minha restante família e amigos que foram super importantes na minha recuperação.

                Na primeira consulta no IPO de Coimbra com o meu ginecologista fiz uma citologia e mais uma série de exames e análises para verificar se havia ou não ramificações, o que felizmente não aconteceu. Passado uma semana fiz a biopsia, já quase mentalizada que seria maligno e que se veio a confirmar uma semana mais tarde. A equipa medica examinou-me e propôs então fazer antes da cirurgia 4 sessões de quimioterapia para reduzir o tumor ao máximo e assim poder preservar a mama. Confesso que não ia a contar em fazer quimioterapia mas sim fazer a cirurgia e pronto assunto resolvido, mas concordei com os médicos e havia de ser o que Deus quisesse.

                Quando fiz a primeira quimioterapia não tive qualquer sintoma, aliás ao

outro dia fui trabalhar, pois a mesma tinha sido levezinha, mas ao fim de 15 dias o cabelo começou a cair e eu no dia a seguir fiz um pente 1, isto foi a um sábado e avisei minhas filhas que iria ao cabeleireiro. Foi um dia muito difícil para mim, mas assim que rapei o cabelo meti um gorro, que por sinal era da minha filha mais nova, e durante a viagem até casa chorei o bastante para poder enfrentar o que vinha a seguir. Quando cheguei a casa e minhas filhas me viram com o gorro, a mais velha sabia o que eu tinha ido fazer e a mais nova brincou inicialmente comigo pois eu estava com o gorro dela. Quando eu tiro o gorro vejo a cara de pânico da minha filha mais velha e a mais nova agarrou-se a mim a chorar; tive que ser forte e brincar com a situação. Na altura a Fernanda Serrano fazia uma Novela no qual tinha passado pelo mesmo e então eu dizia que estava com uma careca mais sexy e mais bonita que a Fernanda e que para ser como ela só me faltava a altura. E assim fui levando a doença numa brincadeira, sempre a trabalhar, excepto nos dias em que fazia os tratamentos e ficava depois de ressaca como costumava dizer. Comprei e ofereceram-me muitos lenços coloridos para eu tapar a minha careca pois como depois da operação tive que voltar a quimioterapia o cabelo voltou a cair e dessa vez foi o meu marido, que com a sua enorme paciência, me rapou o cabelo com uma gillete. Fui sempre muito mimada por toda a minha família mais chegada, os verdadeiros amigos e vizinhos do meu prédio, patrões e colegas de trabalho.

                Em Outubro de 2005 meus vizinhos e familiares fizeram-me uma homenagem por eu demonstrar sempre tanta força e alegria. Foi um momento único que guardo até hoje no meu coração. E hoje cá estou a dar o meu testemunho, para que as pessoas que estejam a passar pelo mesmo ou que ainda venham a passar não baixem os braços e lutem, pois podemos perder a guerra mas não a batalha. Temos que ser optimistas e encarar o cancro como um inimigo a abater.

                Normalmente dizem que no caso do cancro da mama não há dor, não é um sintoma muito comum mas é também mais um sintoma, não podemos descurar o nosso corpo, pois quando detectado precocemente o cancro tem cura, seja ele qual for.

                No IPO de Coimbra são todos profissionais e seres humanos incríveis que nos ajudam bastante. Foi lá também, ao ouvir e ver fotografias de uma senhora que ja tinha passado pelo mesmo e que entretanto estava a preparar-se para a reconstrução, que eu fui buscar mais forças ainda e pensava se ela conseguiu porquê eu também não consigo? Ainda hoje tenho muitas fotografias do antes, durante e depois e não é para me gabar mas por acaso tinha uma careca muito jeitosinha e só não andava assim na rua para não ferir a sensibilidade das pessoas. No meu caso não fiz a mastectomia. Mas mesmo assim fiquei com os peitos diferente, mas o nosso sistema de saúde nesse aspecto ainda está péssimo; no meu caso não consideram necessário fazer uma plástica.

Espero que o meu testemunho ajude alguém.

Vivam um dia de cada vez, como se fosse o último e sejam felizes

M.A.A. -57 anos, casada, professora universitária, Cancro da Mama em 2007.

                Faz hoje um mês que fiz o último tratamento de quimioterapia. Quer este quer o penúltimo foram muito duros. Não pelo facto de estar quatro horas no hospital com um cateter espetado no braço. Isso é o que menos custa. Sempre levei a minha música, o meu computador, a minha internet e tudo isso ajuda a que o tempo passe. O problema são os dias que se seguem.

                Das primeiras vezes ainda se aguentava. A minha irmã, que conhecia pessoas que tinham tido o mesmo problema dizia: “tu pareces óptima”. É verdade que a comida não me sabia a nada, mas lá ia conseguindo dar as minhas aulas. É verdade que chegava a casa tão cansada que me metia na cama e dormia durante horas. Mas a vontade de me ver livre desta maldita doença levava-me a encarar tudo como um mal necessário e, ao fim e ao cabo, com esperança. Sabendo que os venenos que me metiam cá dentro matavam células más que procuravam matar-me a mim…. Uma guerra entre o bem e o mal travava-se dentro do meu corpo e era natural o incómodo que sentia. Logo no fim da primeira semana depois do primeiro tratamento, de repente descobri que tinha quase 38 graus de febre. Estávamos em Outubro e as diferenças de temperatura provocaram uma constipação…. A partir daí, passei a consumir antibióticos quase diariamente. Lá ia distribuindo os 16 comprimidos pelos 21 dias entre as sessões de quimioterapia.

                Nos últimos dias de cada ciclo já me sentia um bocadinho melhor e os antibióticos entretanto tinham acabado. Esperava então que as minhas defesas naturais, ainda que abaladas, fizessem a sua obrigação.

                Antes da consulta prévia a cada tratamento havia sempre uma certa angústia. Será que o meu sangue está em condições de fazer mais este tratamento? Era quase com alegria, e sobretudo com um grande alivio, que recebia uma resposta que sempre foi positiva. Claro que cada vez andava mais cansada.

                Tive que participar em congressos sempre com medo de que me desse um ataque de tosse. O ar condicionado que fabrica um frio polar (em pleno Dezembro, vá-se lá perceber porquê) nas salas de congressos teve que ser desligado para eu me aguentar. Tive que organizar uma excursão em pleno Dezembro. Felizmente o dia estava bonito, mas mesmo assim, tive que reduzir a quase nada as caminhadas… ao fim de 100 metros parece que tinha acabado de correr a maratona!

                Ansiava pelo dia 20 de Dezembro que representava o fim das aulas. No dia 21 teria o penúltimo tratamento e poderia descansar porque na Faculdade onde trabalho se entrava em período de exames.

Porém, as febres dessa vez foram persistentes, mesmo com antibióticos. Praticamente não saí de casa durante essas três semanas mas não deixei de me sentir mal, permanentemente cansada e incapaz de fazer algo que não fosse ouvir música ou ver TV. Mesmo a internet me cansava demasiado e me desinteressava (eu sou quase viciada na internet e em computadores). Mas o pior estava para vir. Uma semana depois do último tratamento, a 11 de Janeiro, comecei a fazer febres de 38 graus mesmo com o antibiótico diário.

Em desespero telefonei à médica… e no dia seguinte lá estava a fazer análises. Que deram um resultado surpreendente e preocupante: zero de glóbulos brancos. Saí do hospital com uma daquelas máscaras cirúrgicas e uma receita médica de quatro comprimidos de antibióticos por dia. Foram dias angustiantes porque eu sabia como estava vulnerável. Felizmente, novas análises feitas daí a três dias já mostravam alguma recuperação dos glóbulos brancos.

                Há dias saí de casa para assinar uns papéis urgentes. Fui até a Faculdade, onde a minha colega me levou os papéis até ao carro, justamente para me preservar de contágios. Pois foi o suficiente para começar a espirrar e a sentir formigueiros nas mãos (sinal de febre ligeira, mas febre). Quer dizer: estou prisioneira dentro de casa.

                O pior já passou, espero eu. Aguarda-me ainda a radioterapia (um mês) e a hormonoterapia (um comprimido por dia durante 5 anos!). Além do cansaço, quase sempre presente, sobretudo quando se faz qualquer actividade física (subir um lanço de escadas é suficiente…) as capacidades intelectuais são afectadas por estes venenos com que tentamos prolongar a nossa vida…

                Agora, exactamente um mês depois da último tratamento, já consigo escrever no computador sem ter que estar a corrigir quase todas as palavras. A quimioterapia provocou-me uma espécie de dislexia nos dedos. Escrevo com raiva, sabendo que cometo muitos mais erros do que é normal. E mesmo agora, quando tenho que escrever uma consoante dobrada escrevo sempre três em vez de duas… benditos sejam os correctores ortográficos!

                A peruca começa a dar sinais de velhice e a escapar-se-me pela cabeça fora. A depilação automática que me aconteceu começa a dar sinais de regredir: passando a mão pelas pernas já não me parece ter uma pele de rã. Mas o meu cabelo ainda está longe de aparecer… e vai ser desoladoramente branco.

                Tudo isto modificou o modo como hoje vejo a vida. Comecei a apreciar coisas simples e pequenas. O simples facto de não ter febre já me dá algum prazer… e o contrário, claro que me lança no fundo de uma depressão. Isto nunca mais acaba? Nunca mais sou livre de sair à rua, de apanhar frio sem temer pela minha vida? De poder fazer compras? De dormir sem ser embrulhada em milhares de camisolas e camisolinhas? De ter uma vida normal, em suma?

                Amanhã vou começar com a radioterapia. Já sei que também tem os seus riscos e problemas. Mas espero que o pior tenha passado. Lá fora começa a Primavera. E as árvores do jardim em frente começam a florir. Será que saí do túnel? O que me espera no futuro? O médico que me fez as biopsias deu-me esperança de que eu conseguisse “safar-me”. Mas também foi dizendo que a medicina não é uma ciência exacta. Em suma, estou e estarei sempre em risco. O que para uma pessoa ansiosa como eu é péssimo. Talvez seja uma forma de aprender alguma humildade. E afinal, em risco de vida estamos todos nós, todos os dias. Por isso é que devemos valorizar a vida. E o tempo de que dispomos para viver. Não gozar a vida indiscriminadamente, mas viver de forma que valha a pena. De forma que, ao lembrar um dia que passou, não me sinta arrependida do que fiz ou deixei de fazer. Dando sempre o necessário desconto à minha humanidade agora ferida pela doença.

                Mas afinal como é que tudo surgiu?

                Exactamente há cerca de um ano, em Janeiro de 2007, a minha saúde começou a deteriorar-se. Gripes longas e difíceis de vencer e, finalmente, uma gastroenterite vírica. Algo que nunca me tinha acontecido. Nessa altura, a minha mama direita inflamou-se. O médico que veio cá a casa quando lhe falei disso disse-me para ir ao médico logo que possível….

                 Mas as aulas começaram e eu tinha 12 horas por semana e estava a ensaiar um processo de elearning que implicava imenso entusiasmo e imenso trabalho, uma dedicação exclusiva. A vermelhidão passou mas nunca desapareceu completamente. Para o fim do ano lectivo sentia uma ardência na mama. Mas a palpação não revelava nada. O médico de clínica geral aonde fui em desespero, quando me pareceu que tinha nódulos na axila, disse que havia uma ligeira diferença de uma mama para a outra, mas não garantiu nada.

                A mamografia, como sempre, nada revelou. Mas a ecografia já indicou um nódulo cuja biopsia deu o resultado que eu mais temia: carcinoma. Soube esse resultado no dia 1 de Agosto. Raio de mês para ter um diagnóstico destes! Felizmente consegui marcar uma consulta num oncologista que fazia um intervalo nas férias para acudir aos casos urgentes. E passei o mês de Agosto de análise em análise. Felizmente, apesar de ser um mês de férias para toda a gente, consegui ser operada no dia 27 de Agosto. Passado um mês estava a iniciar a quimioterapia, por onde esta história começa. Não é fácil falar de tudo isto. Ainda não há o recuo suficiente. Mas gostava, mesmo assim, de deixar uma mensagem para todas as mulheres que passarem os olhos por estas linhas.

                Para evitar os sofrimentos da quimioterapia, tenham muito cuidado! Não esqueçam que uma em cada oito mulheres vai ter cancro da mama ao longo da sua vida. Não pensem que estão ao abrigo porque não há casos na vossa família… era o que eu pensava e viu-se o resultado. Os caroços nem sempre se sentem, devo dizer que foi o meu caso… Controlem a vossa saúde de acordo com os protocolos próprios de cada idade e situação. Se descobrirem algo de anormal não hesitem em ir ao médico. Podem evitar uma situação de risco de vida e poupar a vocês mesmas e a todos os que vos são queridos uma infinidade de medos e de sofrimento.

Porto, 10 de Fevereiro de 2008

I. B. – 41 anos, casada, gestora – Cancro da mama em 2006

                A minha história é mais uma história real, vivida na 1ª pessoa, de uma mulher igual a tantas outras, que enfrentam ou já enfrentaram o cancro da mama, que até final de 2005 pertencia ao grupo das mulheres privilegiadas, com uma vida familiar estável (casada, com dois filhos maravilhosos, na altura com 11 e 3 anos), estabilidade profissional (licenciada em gestão de empresas, a trabalhar numa instituição bancária) e acima de tudo uma pessoa feliz.

Janeiro/2006

                Um novo ano se iniciava. A pedido da minha Ginecologista, estava na altura de novos exames de rotina para uma mulher com 39 anos: ecografia pélvica e ecografia mamária (tinha feito exames anteriores em Setembro/2004, nomeadamente uma primeira mamografia, cerca de 1 ano depois de ter deixado de amamentar o meu segundo filho, a qual tinha apresentado um resultado normal). A ecografia pélvica estava normal e a ecografia mamária evidenciava “3 pequenos quistos com 9 mm de diâmetro”. A médica que fez o exame desvalorizou o resultado, uma vez tratar-se segundo ela “de uma situação que era frequente acontecer”. Não tendo qualquer antecedente, nem conhecido nenhum caso familiar de cancro da mama, recomendava a repetição de nova ecografia daí a seis meses, para verificar se, entretanto, os quistos tinham desaparecido. As ecografias foram feitas numa instituição privada, local onde fazia habitualmente exames de rotina. A minha Ginecologista, com a sua experiência e profissionalismo, ao ver a ecografia, apesar de me tranquilizar, achou que a deveria repetir novamente, a qual efectuei em Março/2006. Nessa altura, o que até aí pareciam “3 quistos” já era apenas uma única formação com contornos irregulares e já com cerca de 17 mm. Neste caso, uma outra médica que me fez este exame, apesar de ter visto a ecografia anterior e o respectivo relatório, já recomendou que efectuasse uma biopsia, para, segundo ela, “ficar mais descansada”. Nesta altura ainda não me sentia preocupada, porque quer de uma quer de outra vez, não foi sequer colocada a hipótese de que se tratava de um nódulo. A minha Ginecologista em face da evolução ocorrida, pediu-me para realizar de imediato a biopsia, a qual efectuei em Abril. O resultado estaria pronto cerca de 15 dias depois.

                Recordo-me de após ter efectuado o exame ter chorado muito, por talvez já a recear o pior. (Até aqui tudo parece normal, mas de facto, houve dois erros sucessivos e o mais grave de todos, ocorreu logo em Janeiro, quando o diagnóstico efectuado foi completamente errado, pois para além de não serem 3 quistos, vir-se-ia a constatar que até a própria medição foi mal efectuada. Se não fosse o profissionalismo da minha Ginecologista, talvez hoje eu fosse recordada, como mais uma a quem o cancro da mama tinha tirado a vida prematuramente).

3 de Maio de 2006

                Dia de aniversário do filho C. (12 anos). Iriam ser festejados nesse dia à noite com familiares e amigos. O resultado da biópsia estava pronto, e, depois de mais um dia de trabalho, resolvi ir levantá-lo, com a ansiedade própria de quem espera por um resultado definitivo. Cheguei a casa, sozinha, e com o resultado entre mãos, não resisti em abrir o envelope e foi então que tudo se confirmou. Numa frase conclusiva, uma palavra evidenciava o pior: carcinoma. Sentei-me no chão a chorar muito. Senti-me perdida. Tudo se desmoronava em cima de mim e na minha mente, apenas um pensamento: era o princípio do fim, e a morte, a única via que avistava no meu horizonte. (Poucos anos antes tinha assistido à morte de um familiar, também ele vítima dessa terrível doença). Pouco tempo depois chegou o meu marido a casa, feliz, com o bolo de aniversário para o meu filho, quando depara comigo a chorar muito. Então, depressa percebeu que algo não estava bem e logo entendeu a minha angústia. Dei-lhe um forte abraço, com uma tristeza profunda, com a mágoa de uma despedida que seria prematura, mas que parecia evidente. No meu pensamento imediato estavam os meus filhos, os meus pais e o meu marido que ali estava comigo sem dizer qualquer palavra, talvez a pensar o que seria a sua vida e a dos nossos filhos a partir desse instante. Ele próprio parecia não querer convencer-se da verdade dura que acabara de saber. Pouco depois falei com a minha Ginecologista. Li-lhe o relatório da biopsia ao telefone e disse-me logo que teria que ser operada de imediato. Tranquilizou-me e indicou-me um cirurgião para me operar, pois seria “a pessoa que escolheria caso tivesse um problema de saúde semelhante”. Entretanto, a festa do meu filho realizou-se, sem que alguém soubesse do que se passava. Entre as pessoas presentes estavam os meus pais, com quase 80 anos, que eram as últimas pessoas a quem eu quereria contar tal notícia. O meu filho, aniversariante, estava feliz e nada tinha percebido.

                Logo no dia seguinte o cirurgião recebeu-me e numa consulta com cerca de 2h, esclareci todas as dúvidas que surgiam a cada instante. Percebi de imediato que estava na presença de um cientista, que me transmitiu uma grande esperança e na qual passei a confiar plenamente. Explicou-me, em pormenor, que no meu caso já não seria possível efectuar uma cirurgia conservadora, dado o tamanho da lesão, relativamente ao tamanho da mama e para que o resultado estético final fosse aceitável. Paralelamente, informou-me que após a cirurgia, teria que efectuar tratamentos de quimioterapia. Foi aqui que tomei consciência da gravidade da minha doença.

                A cirurgia foi marcada para uma semana depois e durante esse período, foi muito duro e angustiante o passar dos dias. Os sonos deixaram de existir. A operação foi comunicada a um número muito restrito de pessoas, por opção própria, pois na altura não queria partilhar com quase ninguém o que me estava a acontecer. Durante essa semana realizei outros exames e consultas prévias, nomeadamente com o Cirurgião Plástico (que iria fazer a reconstrução da mama) e ainda com o radiologista que de novo me efectuou exames de avaliação do estado da doença, nomeadamente através de mamografia e estudo da axila.

15 de Maio de 2006

                Dia da cirurgia. A ansiedade era muita, os medos transversais. Sentimentos mistos, pois ao mesmo tempo, uma enorme força interior. A manhã foi passada numa unidade de medicina nuclear, onde ao longo de cerca de 3 horas efectuei uma linfocitigrafia. (Este exame consiste na injecção de um produto radioactivo que permite identificar o(s) gânglio(s) sentinela, gânglio(s) este(s) que são os primeiros a receber eventuais metástases do tumor mamário. Consiste numa preciosa orientação para o Cirurgião. Após o exame, fui para o Hospital. Na minha mala, para além das coisas que habitualmente são necessárias, dois pequenos objectos muito especiais: a foto dos meus filhos C. de 12 anos e T. de 3 anos e ainda uma pequena imagem em prata de Nossa Senhora de Fátima com o Seu Filho ao colo, que entretanto tinha oferecido à minha mãe. Tinha consciência que iriam ser horas difíceis, mas também sabia que lá fora, estava presente nos corações e no pensamento de várias pessoas, nomeadamente no dos meus pais que estavam a sofrer em silêncio mas com uma fé e uma esperança muito grandes, que me ajudavam a acreditar que tudo iria correr muito bem. Depositei toda a confiança nos médicos que me estavam a acompanhar. A cirurgia começou por volta das 16h. No bloco operatório já se encontrava toda a equipa. A cirurgia correu muito bem, embora demasiado longa (só terminou por volta das 23h), pois foi efectuada a reconstrução imediata. (Esteticamente o resultado ficou perfeito e hoje não se reconhece qual a mama que foi operada).

                Quando acordei da cirurgia, percebi a verdadeira dimensão da mesma, mas ao mesmo tempo senti um grande alívio. Os dias que se seguiram foram muito difíceis, mas a esperança foi sempre muita. Os médicos que me acompanharam transmitiam-me muita confiança e isso reflectiu-se na evolução do meu estado, pese embora a debilidade física fosse demasiado evidente (o meu peso, nessa altura, era de cerca de 44 kg). Após a alta, seguiram-se cerca de 3 semanas ainda com um dreno colocado nas costas que motivava visitas regulares ao Hospital. Durante este período permaneci em casa dos meus pais, para poupar ao máximo os meus filhos. Não queria que qualquer um deles se apercebesse do sofrimento da mãe, pois não perceberiam. Um mês passado sobre a data da cirurgia, uma nova etapa na luta contra o cancro da mama, iria iniciar: a quimioterapia orientada pela oncologista médica após apresentação em reunião de grupo multidisciplinar.

                A primeira consulta serviu, entre outras coisas, para me esclarecer muitas dúvidas sobre o tratamento. Foi de facto um momento muito duro, pois percebi que entre outras consequências, a queda do meu cabelo seria inevitável. Felizmente que hoje já há meios disponíveis no mercado para minorar esta situação e no meu caso concreto optei pelo uso de peruca semelhante ao meu cabelo natural. Confesso que durante esses meses, por opção, nunca me olhei no espelho sem cabelo. Não sei como teria reagido se o fizesse. O meu rosto ficou descaracterizado, sem pestanas nem sobrancelhas; os olhos, sem expressão; o corpo muito inchado. Pese embora sempre tenha sido uma pessoa preocupada com a imagem, nessa altura, mesmo com muito esforço, era impossível ser-se igual.

                 O período da quimioterapia é longo – cerca de 6 meses – (6 tratamentos com intervalos de tempo de 3 semanas), e a agressividade dos tratamentos, no meu caso concreto, foi terrível. ( A quimioterapia efectuada, não é igual em todos os casos, dependendo dos diferentes tipos de tumores, tamanho, grau de malignidade, idade da doente. Todos os casos são distintos). Durante esse período, todo o apoio que tive, foi fundamental para me ajudar a ultrapassá-lo. Esta foi sem dúvida uma fase que me marcou muito, pois foi quando senti que estava verdadeiramente doente. No entanto, à medida que ia efectuando os tratamentos, ia sentindo cada vez mais próximo o fim do pesadelo. Durante as sessões de quimioterapia tive sempre o privilégio de ter a presença da minha mãe, que apesar dos seus 78 anos, fez sempre questão de nunca me abandonar durante essas longas horas. A oncologista médica, que me acompanhou nesta fase do tratamento (e que continua a acompanhar), sempre me transmitiu uma enorme confiança, através do seu conhecimento e profissionalismo. Nessa altura, conheci outras senhoras, com idades idênticas, que tinham vivido ou estavam a viver a mesma experiência, com quem tenho mantido contacto e que felizmente estão todas muito bem. Algumas, tornaram-se verdadeiras amigas e apoiamo-nos mutuamente. A quimioterapia acabou ainda em 2006, mas só no início de 2007 a minha vida começou, embora muito lentamente, a retomar a normalidade possível. Foi fundamental para o sucesso da minha recuperação todo o apoio que senti, nomeadamente dos familiares mais próximos e de amigos. O sofrimento extremo era atenuado. São meses de angústia, de muitas incertezas, mas a nossa força interior tem que ser, de facto, mais forte. O acreditar firmemente que é possível vencer a doença, tem que prevalecer.

                Desse longo ano sobressaiu na minha vida outro tipo de sentimentos, que até então quase não havia tempo de os sentir, nomeadamente a compreensão, o carinho e o afecto dos que nos estão mais próximos.

                Em final de Fevereiro de 2007 retomei a minha actividade profissional o que considero muito positivo, pois aos poucos fui conquistando mais confiança e força e o meu dia-a-dia foi-se tornando cada vez mais “normal”.

                O ano de 2007 acabou e desde a cirurgia já lá vai mais de um ano e meio. Os maus momentos já fazem parte do passado e os dias hoje já são em tudo semelhantes aos que vivia antes de adoecer, no entanto, o sentido da minha vida alterou-se profundamente. Os dias vivem-se de forma diferente, pois inevitavelmente ficamos diferentes. Aprende-se a viver com maior serenidade e a minha família e o seu bem-estar, são agora as minhas prioridades.

                Hoje sinto prazer em parar, parar para pensar, para escutar, para reflectir, para rezar. O silêncio faz-me falta. A minha história acaba como começou: sou novamente uma mulher privilegiada, que reaprendeu a viver após ter ultrapassado um longo obstáculo na vida. Amadureci e despertei para uma realidade que não imaginava, mas que me ensinou muito. Afinal, nunca estamos preparados para a doença. Sinto-me muito confiante, com uma imensa força interior e rodeada de pessoas que me querem bem. Como católica que sou, acredito que toda esta força me é dada por Deus que desde o início nunca me abandonou. Este é, sem dúvida, um dos princípios fundamentais: acreditar que Deus nunca nos abandona.

                A mensagem que quero deixar a todas as mulheres que vierem a ler esta minha “história” real, e que porventura possam estar a enfrentar a mesma doença, é que nunca deixem de ACREDITAR. Paralelamente não deixem de fazer os seus exames de rotina, com a periodicidade adequada, pois caso seja detectado numa fase inicial, o cancro da mama tem cura. O cancro da mama é uma doença com um nome feio, e a forma de o tratar, com um nome mais feio ainda (quimioterapia), mas que tem que ser encarada como o único caminho para a cura, o único caminho para uma nova vida. Confiem nos médicos e em todos os profissionais de saúde que as acompanham, e sigam sempre as suas indicações. Sentir-se-ão assim sempre apoiadas.

                 No meu caso em particular, quero aproveitar para agradecer a todos os profissionais que me ajudaram neste longo percurso e que continuam a apoiar-me. A todos os que me apoiaram na minha luta, em particular, aos meus filhos, ao meu marido, aos meus pais, a todos os familiares e amigos, a todos os que pelo menos uma vez pensaram em mim e na minha família, MUITO OBRIGADA.

 

 

 

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